quinta-feira, 24 de maio de 2018

«Golpe de Mestre»: o roteiro oficial da guerra contra a Venezuela

Os EUA estão a atacar a Venezuela cumprindo um plano «top secret» elaborado pelo SouthCom do Pentágono, que só será dado como concluído «quando a ditadura corrupta de Nicolás Maduro tiver sido derrotada».



Elaborado para ser aplicado em várias fases, o «Plano para Derrubar a Ditadura Venezuelana – Golpe de Mestre», assim foi baptizado o documento assinado pelo almirante Kurt Walter Tidd, comandante do SouthCom (Comando Sul), prevê uma agressão militar multinacional integrando tropas de combate norte-americanas e de países da região, incluindo o Brasil, sob comando directo do Pentágono. Como se percebe pela leitura integral do texto, esta guerra será um primeiro passo para o «renascimento da democracia» à «escala continental».

Elaborado no início deste ano, embora só recentemente tenha escapado às malhas do secretismo do aparelho de expansão imperial, o plano manteve-se, até agora, nas fases de desestabilização social e política, prevendo a hipótese de o «chavismo», como se escreve amiúde no documento, cair antes das eleições presidenciais de domingo último – nas quais Nicolás Maduro foi reeleito com mais de dois terços dos votos expressos, numa consulta onde a legitimidade e a transparência não foram postas em causa.

Depois desta manifestação democrática e esmagadora da vontade autêntica do povo venezuelano, parece ser hora da passagem a nova fase do «Golpe de Mestre».

«Chegou o momento de os Estados Unidos mostrarem que estão implicados neste processo, no qual a queda da ditadura venezuelana marcará uma viragem à escala continental», adverte o almirante Kurt W. Tidd. Trata-se de agir «em defesa da democracia», e não apenas na Venezuela, onde se assiste «a uma acção criminosa sem precedentes na América Latina»; será um passo «para que a democracia se propague na América, um continente onde o populismo radical está destinado a perder o controlo». Este «renascimento democrático», lê-se no documento, «baseia-se em escolhas corajosas» para as quais «as condições regionais são favoráveis».


A guerra assim traçada contra a Venezuela, e para a qual o Pentágono mobilizou o Brasil, a Argentina, a Colômbia, o Panamá e a Guiana como agressores directos, «é a primeira ocasião para a Administração Trump pôr em andamento a sua visão de democracia e segurança, demonstrando como é crucial para o continente e o mundo inteiro», escreveu o comandante do SouthCom. «Chegou o momento de agir», insiste.

O já veterano, mas avulso, processo norte-americano de conspiração contra a Venezuela soberana – marcado por golpes, tentativas de golpe e sucessivos episódios terroristas intimidando a população do país – foi actualizado em 23 de Fevereiro deste ano sob a forma de plano estratégico, na altura em que Washington obrigou a oposição de extrema-direita, que patrocina, a rejeitar o «acordo de convivência» nacional no qual a mediação do ex-primeiro-ministro espanhol Rodríguez Zapatero fora bem-sucedida. Quando a assinatura estava prestes a acontecer, nesse mês de Fevereiro, o então secretário de Estado de Trump, Rex Tillerson, telefonou ao chefe da delegação Movimento de Unidade Democrática (MUD – de inspiração fascista), Júlio Borges, proibindo-o de assinar o documento.

A ordem assim emanada equivaleu a uma desautorização, a uma secundarização dos dirigentes arruaceiros patrocinados pelos Estados Unidos, forçados agora a uma ausência eleitoral que se virou novamente contra os próprios devido ao desacreditado e desastrado boicote das eleições presidenciais de domingo.

Uma situação agravada com o seu apagamento operacional do plano conspirativo, de cuja aplicação os Estados Unidos assumem agora plenamente as rédeas. «O governo corrupto de Maduro ruirá, mas infelizmente as forças de oposição que defendem a democracia e o nível de vida da população não têm a capacidade necessária para pôr fim ao pesadelo venezuelano», testemunhou o almirante Kurt W. Tidd. Esses sectores são vítimas de «disputas internas», acrescenta, e de «uma corrupção semelhante à dos rivais, partilhando a mesma falta de raízes», o que «não lhes permite tirar o melhor partido da situação e tomar as decisões necessárias para ultrapassar o estado de penúria e de precariedade no qual o grupo de pressão que exerce a ditadura de esquerda mergulhou o país».

Muitas das medidas incluídas no plano de guerra norte-americano contra a Venezuela são já nossas conhecidas do dia-a-dia dos últimos 20 anos. Porém, é fundamental revivê-las à luz da redacção nua e crua que o almirante Tidd lhes deu, escudado na eficácia do «top secret», para que todos entendamos como a informação internacional dominante obedece às ordens dos donos – com especial meticulosidade neste caso venezuelano.

Para alcançar «a erradicação definitiva do chavismo e a expulsão do seu representante», o comandante do SouthCom do Pentágono recomenda que se «intensifique a insatisfação popular, favorecendo mais instabilidade e penúria, de modo a tornar irreversível o descrédito do ditador». Nesse sentido, aconselha a «atacar repetidamente o presidente Maduro, ridicularizá-lo e apresentá-lo como um exemplo de incompetência, um fantoche às ordens de Cuba».

Trata-se ainda, acrescenta este modelar roteiro de agressão imperial, «de aumentar a instabilidade até níveis críticos, intensificando a descapitalização do país, a fuga de capitais estrangeiros e a deriva da moeda nacional através da aplicação de novas medidas inflacionistas».

Recorrendo a um estratagema sempre muito eficaz em relação aos objectivos pretendidos, o almirante recomenda ainda que «se ligue o governo ao narcotráfico, de modo a degradar a sua imagem aos níveis interno e externo».Percorrendo abertamente a estrada da sabotagem e do terrorismo, o almirante Kurt W. Tidd recomenda «fazer obstrução a todas as importações e desmotivar, ao mesmo tempo, os eventuais investidores estrangeiros», de modo a «tornar mais crítica a situação da população»; «apelar aos aliados internos e a outras pessoas bem inseridas no panorama nacional para que promovam manifestações, distúrbios e insegurança, pilhagens, roubos e atentados, sequestros de barcos e de outros meios de transporte para perturbar a segurança nacional nos países limítrofes»; e também «fazer vítimas», responsabilizando por isso o governo, assim «aumentando a dimensão da crise humanitária aos olhos do mundo inteiro».

Estende-se por 11 páginas, este «Golpe de Mestre», exemplo acabado de um roteiro de terrorismo de Estado e de estados que culmina com o planeamento de uma guerra regional e internacional contra um país independente, democrático e soberano com mais de 35 milhões de habitantes, por sinal o maior produtor mundial de petróleo; uma realidade frequentemente escamoteada para esconder a incontida gula internacional, diluída pelos efeitos da manipulação ostensiva dos conceitos de ditadura e democracia.

O essencial do golpe montado com a assinatura do comandante do SouthCom do Pentágono é «fazer a unidade do Brasil, da Argentina, da Colômbia e do Panamá, de modo a contribuírem para o reforço de tropas, usarem a proximidade geográfica e a sua experiência de operações em regiões arborizadas e de selva». Essa «frente internacional contará também com a presença de unidades de combate dos Estados Unidos e das nações mencionadas», ficando «o todo sob o Comando Geral do Estado Maior Conjunto, dirigido pelos Estados Unidos».

Prevê-se também «o estacionamento de aviões de combate, helicópteros, veículos blindados, a instalação de postos de espionagem e unidades militares especiais de logística (polícias, quadros operacionais e prisões)».

O almirante Kurt W. Tidd especifica que «devem utilizar-se as facilidades do território do Panamá como retaguarda»; «as capacidades da Argentina para garantir a segurança dos portos e posições marítimas»; a experiência do Brasil e da Guiana em termos de serviços e controlo de migrações para «coordenar o apoio à Colômbia, ao Brasil, Aruba, Curaçao, Trindade e Tobago e outros estados perante o afluxo de migrantes venezuelanos provocado pelo avanço da crise».

Considera-se importante «favorecer a participação internacional neste esforço, como parte da operação multilateral, através da contribuição de estados, ONG e corpos internacionais», sobretudo em matéria de logística, informações e capacidade de antecipar situações.

Depois de apelos à revolta no interior das Forças Armadas venezuelanas e de incentivos ao «envolvimento das forças aliadas no apoio» aos eventuais sediciosos, o «Golpe de Mestre» passa ao «nó da questão» para garantir o triunfo na guerra: «obter o apoio e cooperação das autoridades aliadas de países amigos (Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Guiana); organizar o acantonamento de tropas, apoio logístico e médico a partir do Panamá; fazer uso adequado de tudo o que permita a vigilância electrónica e os sinais inteligentes, meios hospitalares e os fundos enviados para Darién (na selva do Panamá); tirar partido do equipamento do Plano Colômbia em drones, bem como dos territórios das antigas bases militares de Howard e Albrook, e do aeroporto de Rio Hato (Panamá); e também do Centro Regional Humanitário da ONU, concebido para situações de catástrofe e emergência humanitária, que integra uma pista de aterragem e as próprias instalações de apoio.»

O almirante Tidd realça a importância do recurso aos grupos paramilitares, vulgo «esquadrões da morte», sugerindo o reforço do recrutamento sobretudo em campos de refugiados como os de Cúcuta, La Guajira (Colômbia), tirando inclusivamente proveito, para tornar mais eficaz o seu desempenho, do «espaço vital» deixado pelas FARC na sequência do processo colombiano de paz. Um dos objectivos desta frente será o de «alimentar continuamente a tensão na fronteira (entre a Colômbia e a Venezuela), fomentar o tráfico de combustíveis e outros bens, as incursões dos paramilitares e o tráfico de droga para provocar incidentes armados com as forças de segurança fronteiriças».

Em suma, recomenda o comandante do SouthCom, é importante fazer o que for necessário para «tornar insustentável o governo Maduro, obrigá-lo a negociar, a hesitar, a fugir».

O plano de guerra contra a Venezuela aborda ainda o capítulo da propaganda, onde não acrescenta muito ao que tem sido a prática generalizada na comunicação social ao serviço da mundialização anglo-saxónica.

Isso passa, recorda, por «intensificar o descontentamento contra o regime de Maduro», designadamente «assinalando o fracasso dos mecanismos de integração montados pelo regime de Cuba, entre eles a ALBA e a Petrocaribe».O almirante Tidd sublinha, por exemplo, que os conteúdos «informativos» devem obedecer ao princípio essencial de «abafar a simbologia chavista baseada na sua representatividade e no apoio popular», invertendo-a de modo a apresentar «os ditadores como únicos responsáveis pela crise em que a nação mergulhou».

O recurso a «mensagens fabricadas» com base em supostos testemunhos e documentos oriundos do interior do país, a difundir pelos media nacionais e internacionais e pelas redes sociais é outro dos caminhos recomendados. A finalidade: «veicular por todos os meios a necessidade de pôr fim à situação, porque esta se tornou essencialmente insustentável.»

A panóplia de instrumentos de mistificação inclui «assegurar ou montar o uso de meios violentos por parte da ditadura para obter o apoio internacional», utilizando «todas as capacidades de guerra psicológica do exército dos Estados Unidos».

Ao longo do documento são várias as alusões às Nações Unidas, seus órgãos, instalações e meios, integrados como partes activas neste processo de guerra ilegal. Sobre a invocação abusiva – ou não – da disponibilidade e participação da ONU na agressão organizada contra a Venezuela, feita pelo SouthCom do Pentágono, seria interessante conhecer a posição do secretário-geral da organização.

De registar, por outro lado, que nenhum dos países citados como fazendo parte da coligação militar anti-venezuelana – designadamente Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá, Guiana – tem qualquer contencioso com a Venezuela por resolver, muito menos que justifique uma opção extrema de guerra.

No entanto, embora conste que falta ainda a assinatura de Donald Trump para desencadear a fase declaradamente bélica, as operações militares já começaram. Têm decorrido exercícios de guerra na fronteira entre o Brasil e a Venezuela com o envolvimento de tropas norte-americanas, brasileiras, peruanas e colombianas; e nas águas do Atlântico Sul, com a participação de forças navais dos Estados Unidos, Chile, Reino Unido e Argentina. Operações das quais emerge, por exemplo, a coligação absurda entre forças argentinas e britânicas, tecnicamente inimigas por causa do contencioso sobre as Maldivas/Falkland, agora juntas contra a soberana e pacífica Venezuela.

Este cenário reflecte, de facto, o objectivo norte-americano de fomentar uma guerra continental contra o regime democrático venezuelano. O almirante Kurt W. Tidd sublinha que será necessário «colocar a operação militar sob bandeira internacional, com o aval da Conferência dos Exércitos latino-americanos, sob a protecção da Organização dos Estados Americanos (OEA) e a supervisão, no contexto legal e mediático, do respectivo secretário-geral, Luis Almagro».

Atingindo o zénite do cinismo terrorista, o comandante do SouthCom recomenda a conveniência de «declarar a necessidade de reforçar a acção do Comando Continental, servindo-se dos instrumentos da democracia interamericana com o objectivo de evitar a ruptura democrática».

Há um aspecto em que este prospecto criminoso, ofensivo das mais elementares normas de convívio universal, dos direitos humanos e dos princípios democráticos, tem uma utilidade indesmentível: vamos assistindo a sucessivas guerras de agressão e aos efeitos das mais apuradas mistificações com que nos são relatadas e comentadas; a partir de agora, porém, sabemos como se criam estes episódios sangrentos, através dos quais se vai formatando o mundo «na era da globalização».

Devemos agradecer ao almirante Kurt W. Tidd a sua franqueza, ainda que involuntária, valendo-nos também a clareza luminosa de mais um leak entre os vários que, de tempos-a-tempos, nos permitem transformar fundamentadas suspeitas no conhecimento de inegáveis realidades.

Sabemos agora um pouco mais sobre os «golpes de mestre» que inspiram os comportamentos dos mais poderosos entre aqueles que garantem governar-nos em nome da democracia e, frequentemente, «com a bênção de Deus».

POR JOSÉ GOULÃO, in AbrilAbril

terça-feira, 15 de maio de 2018

Fadi Abu Salah (1989 - 2018)


Fadi Abu Salah tinha 29 anos. Primeiro eles roubaram-lhe a terra, depois tiraram-lhe as pernas em 2008, ontem tiraram-lhe a vida...

Mais aqui, aqui e aqui.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Israel usa armas químicas com bênção global

A tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas.

Créditos fotografia  / palestinalibre.org

Senhor desalojará diante de vós todos esses povos e submetereis povos maiores e mais fortes do que vós. Toda a região que a planta dos vossos pés pisar será vossa. Desde o deserto até ao Líbano e desde o rio Eufrates até ao mar ocidental serão essas as vossas fronteiras. Ninguém vos poderá resistir; o Senhor vosso Deus espalhará o medo e o terror sobre todos os lugares onde puserdes o pé, como vos afirmou.»
Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 11 – 23, 24 e 25
 
Até prova em contrário, esta é a lei ainda em vigor num mundo sem lei. Palavras atribuídas ao profeta Moisés, que não terão pertencido a Moisés, inscritas afinal não se sabe por quem num dos cinco livros do Antigo Testamento, parte da Bíblia que garante a supremacia do «povo escolhido», o «povo de Israel», sobre os demais povos da Terra. Colectâneas de lendas, ficções e profecias de origens desconhecidas e perdidas no tempo, em torno das quais se alongam discussões e teorias especulativas eternamente inconclusivas, continuam a servir de sustentação a práticas de uma crueldade aterradora, exercidas com uma impunidade absoluta e que se sobrepõem às mais elementares e actuais leis dos homens. Por isso, Israel usa armas químicas contra a população sitiada da Faixa de Gaza enquanto os cidadãos supostamente informados continuam entretidos com a novela da mirabolante e fracassada tentativa de assassínio dos Skripal, a que se somam as contaminadas historietas sobre os arsenais químicos da Síria de Assad, tão bem escondidos como outrora as armas de extermínio à disposição do Iraque de Saddam. Por causa das maléficas, mas invisíveis, armas químicas que teriam sido usadas em Duma, na Síria, a tríade fraternal e justiceira formada por Trump, Macron e May, sob coordenação da NATO, fez chover mísseis de cruzeiro sobre terra síria, alguns de um modelo em estreia absoluta, guiados contra paióis tão venenosos que deles não consta ter-se libertado um átomo de qualquer produto perigoso. Pelo mesmo motivo, sucederam-se reuniões e vetos no Conselho de Segurança da ONU, como se a salvaguarda da lei e do direito no mundo fosse unicamente ameaçada por comportamentos não demonstrados, atribuídos aos senhores de Damasco, amigos e aliados. Foi tanta a atenção concentrada nestes acontecimentos que não chegou para se debruçar sobre a utilização comprovada de armas químicas israelitas contra os seres humanos indefesos encarcerados em Gaza. Usados ainda como cobaias em testes de munições concebidas para provocar sofrimentos longos e torturantes a pessoas cuja única culpa é a de não pertencerem ao «povo eleito» e quererem viver na terra onde nasceram.
«Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz.»
Sobre essa realidade não se pronunciou ainda o Conselho de Segurança da ONU, provavelmente por falta de tempo, ou talvez porque já não se justifique discutir atentados cometidos com engenhos interditos numa situação que se tornou corriqueira, banal, de relevo insuficiente para ocupar espaço na agenda dos senhores do mundo e respectivos vassalos. Em Gaza, todas as sextas-feiras de há umas semanas para cá, milhares de pacíficas famílias palestinianas, sem armas nem símbolos políticos, reúnem-se na zona dos remanescentes terrenos agrícolas do enclave para tentarem, mais uma vez, denunciar ao mundo as crueldades a que mais de dois milhões de pessoas ali continuam sujeitas: cercadas por vedações, sitiadas militarmente, sem infraestruturas que permitam uma existência digna de seres humanos, entre lixos, ruínas e destroços, quase sem água nem energia eléctrica, com carências gritantes de medicamentos e alimentos, sem trabalho nem escolas. Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz. Os palestinianos que participam nessas manifestações cívicas que designaram como «Marcha do Regresso», o regresso às terras que lhes pertencem de pleno direito em toda a Palestina, expõem-se, em campo aberto, aos exercícios de tiro ao alvo e às sevícias engendradas pelas tropas israelitas sitiantes. Activistas de todo o mundo que apoiam solidariamente estas acções de resistência afirmam, com um optimismo pouco objectivo, que a coragem demonstrada por estas famílias palestinianas tem vindo a reflectir-se na opinião pública e entre dirigentes de todo o mundo, que assim adquirem uma nova consciência do desequilíbrio de forças e da injustiça flagrante da situação. Em Fevereiro último passaram 30 anos sobre a primeira vez que estive em Gaza, menos de um mês depois de ter explodido a chamada «Intifada», a genuína, legítima e justa revolta das pedras – iniciada naquele paupérrimo território. O cenário que então chegou a grandes meios de comunicação social, revelando cruamente a desproporção do confronto entre jovens arremessando pedras contra um exército de topo esmagando-os com tanques, chamou a atenção para o problema da ocupação ilegal da Palestina. Porém, a resposta eficaz da propaganda sionista e dos seus poderosos tentáculos ramificados em todo o planeta foi dando volta à situação, tornando fugaz a indignação internacional, transformando a legítima expressão da ira dos ocupados, perseguidos e espoliados em episódios de «terrorismo» doutamente comentados e explicados por quem se ocupa apenas de deturpar a realidade e mentir sobre razões. Os ecos da «Marcha do Regresso» não rompem agora a barreira formada pela propaganda instalada e institucionalmente sedimentada, cavalgando fronteiras. Por isso, a tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas. O notável cirurgião francês Christophe Oberlin tem estado em Gaza, ocupando-se da assistência a vítimas da chacina permanente cometida pelo exército israelita contra a população sitiada. Não tem quaisquer dúvidas em afirmar que estão a ser cometidos atentados com armas químicas «no norte e no sul» do território mártir. «Esses ataques deixam no terreno dezenas de feridos inconscientes e agitados por convulsões durante longos minutos», escreve o Professor Oberlin.  «Convulsões que se repetem regularmente nos feridos hospitalizados nas unidades de cuidados intensivos». A causa são «gases neurotóxicos», explica o médico, que durante 8 e 15 de Abril realizou cirurgias sucessivas no Hospital de Shifa, em Gaza, o mais importante da região. São também «usados outros gases, de cor diferente, que provocam vómitos e diarreias sangrentas», acrescenta. Ao que consta, ninguém encarregou ainda a Organização para a Destruição de Armas Químicas de investigar estas denúncias fundamentadas – quiçá por isso silenciadas. O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes. São balas «com efeitos explosivos que fazem rebentar os ossos, transformam o interior dos crânios em pastas sangrentas, destroçam os corpos abrindo crateras pelas quais podem passar punhos», testemunha o médico. Dezenas de mortos e mais de 500 feridos é, até agora, o balanço das chacinas israelitas cometidas para travar as «marchas do regresso» semanais. Membros da organização «Médicos Sem Fronteiras» presentes no terreno confirmam as informações prestadas pelo Professor Oberlin. Depararam com «ferimentos devastadores de uma severidade pouco habitual, de tratamento extremamente complexo e que deixarão sequelas na maioria dos pacientes». As balas «destroem literalmente os tecidos e pulverizam os ossos», explica a Dr.ª Marie-Elisabeth Ingres, responsável pela equipa dos «Médicos Sem Fronteiras» presente em Gaza.
«O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes.»
Sobre estas utilizações de armas e engenhos interditos que ferem o direito internacional paira um absoluto silêncio do Conselho de Segurança da ONU. Como se já não sobrasse direito internacional para ferir. Silencioso está igualmente o secretário-geral da ONU. Talvez seja melhor assim, ou voltaríamos a escutar um dos seus corajosos apelos à «contenção de ambas as partes»: neste caso os cidadãos desarmados e indefesos que se manifestam pelos seus direitos, garantidos nas resoluções aprovadas pela organização que dirige, mas sempre sonegados; e soldados israelitas recorrendo a armas químicas e apoiados em snipers que actuam em campo livre, e sem resposta, disparando balas que «pulverizam ossos», destroçam tecidos e transformam crânios em «pastas sangrentas». Justiça biblicamente salomónica, a de Guterres. Perante o quadro em que funciona actualmente a chamada «comunidade internacional» é natural que qualquer cidadão israelita, mesmo céptico em relação à religião oficial do seu país, sinta a inutilidade de esgrimir argumentos racionais e humanitários perante as convicções e as verdades divinas invocadas pela doutrina político-religiosa fundamentalista – a essência do sionismo - em que assenta a existência do Estado de Israel. Por isso esta transitou, pacífica e gradualmente, de uma hipócrita democracia formal para um sistema indisfarçadamente elitista, xenófobo, racista, ditatorial e de absolutismo religioso fundamentalista, regredindo 3500 anos ao encontro dos argumentos míticos e lendários do Antigo Testamento, como alicerces providenciais de um nacionalismo dogmático. O Estado de Israel de hoje assume-se, sem rebuço, como o lar do «povo eleito»  – «Passarás o Jordão para entrares na terra que o Senhor, teu Deus, te há-de dar; toma posse dela e habita ali». (Deuteronómio, cap. 11 – 31). Ao Estado de Israel é permitido assumir, com toda a discricionariedade e sem risco de sanção, comportamentos e atitudes agressivas, difamatórias e ameaçadoras para com os outros Estados, povos e cidadãos do mundo. As organizações, interesses e potências que usam o poder da força para fiscalizar abusivamente a «ordem mundial» são de uma tolerância cúmplice e sem limites para com estes procedimentos.
«Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda»
Tal como o Estado de Israel, também estas entidades violam o conjunto das leis internacionais com o qual se comprometeram. Por isso se uniram em aliança dita «indestrutível», porque todos ganham em violar as leis terrenas –  para pragmático usufruto das vantagens terrenas – cultivando fraternalmente as mais inquestionáveis ficções, afinadas em forma de moderna propaganda. São elites sumptuosas e globais que se elegeram a si mesmas – a versão actual do «povo eleito». Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda, mentiras, silêncios, superficialidade, desinformação e intoxicação, retorcidos dogmas religiosos e civilizacionais. Uma circunstância que permite, por exemplo, cantar loas a uma gesta guerreira contra o uso de armas químicas virtuais enquanto se gaseiam impunemente, com armas químicas reais, os indefesos seres humanos confinados a um campo de morte lenta. Em nome dos direitos humanos.

«Destruirás, pois, todos os povos que o Senhor, teu Deus, te entregar; não olharás para eles com piedade, nem adorarás os seus deuses, porque isso seria para ti uma armadilha». (Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 7 – 16)

Artigo de José Goulão, publicado no Abril Abril 

sexta-feira, 16 de março de 2018

Não é só Marielle: conheça mais 24 casos de lideranças políticas mortas nos últimos quatro anos

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) na noite desta quarta-feira (14/03) acendeu o alerta para um fato alarmente: desde 2014, ao menos outros 24 líderes comunitários, ativistas e militantes políticos foram evidentemente executados em diferentes regiões do Brasil. O levantamento não inclui mortes suspeitas de lideranças nem trabalhadores que não tinham, pelo menos de forma evidente, papel político de liderança. Usando esses dois critérios adicionais, a lista chegaria a centenas de nomes.
 

O historiador Fernando Horta, doutorando na Universidade de Brasília, reuniu uma lista dessas vítimas. Opera Mundi conta um pouco da história destes militantes, executados por conta dos trabalhos que desenvolviam por suas comunidades. 
 
Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro pelo PSOL – 15.mar.2018
A socióloga, ativista dos movimentos feminista e negro, foi executada no centro da capital fluminense. Marielle, a quarta vereadora mais votada na cidade, atuava na comunidade da Maré, onde morava, e, na semana anterior a sua morte, denunciou a violência e os abusos policiais no bairro de Acari. Leia mais aqui.
 
Paulo Sérgio Almeida Nascimento, líder comunitário no Pará – 12.mar.2018
Nascimento era um dos líderes da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama). Segundo a Polícia Civil, ele foi alvejado por disparos do lado de fora de casa, na cidade de Barcarena. Nascimento era atuante nas denúncias contra a refinaria Hydro Alunorte, responsável pelo vazamento de dejetos tóxicos nas águas da região no começo do mês. Leia mais aqui.
 
George de Andrade Lima Rodrigues, líder comunitário em Recife – 23.fev.2018
Rodrigues foi encontrado com marcas de tiros e um arame enrolado no pescoço, após três dias de buscas. O corpo dele foi achado em um matagal às margens de uma estrada de terra. Ele havia sido sequestrado por quatro homens que se diziam policiais. Leia mais aqui.
 
Carlos Antônio dos Santos, o “Carlão”, líder comunitário no Mato Grosso – 07.fev.2018
Carlão era um dos líderes do Assentamento PDS Rio Jatobá, em Paranatinga, no Mato Grosso, e foi morto a tiros, por homens em uma motocicleta, em frente à prefeitura da cidade. Ele estava dentro de um automóvel com a filha e a esposa, que chegou a ser atingida de raspão. Carlão já havia feito várias denúncias à polícia de que estava sendo ameaçado. Leia mais aqui.
 
Leandro Altenir Ribeiro Ribas, líder comunitário em Porto Alegre – 28.jan.2018
Ribas era líder comunitário na Vila São Luís, ocupação da zona norte da capital gaúcha. Ele havia deixado de dormir em casa desde alguns dias antes por conta da guerra entre traficantes da região. No dia em que foi assassinado, voltou à vila para pegar roupas, mas acabou sendo morto. A polícia suspeita de que Ribas tenha sido executado pelos criminosos ao se apresentar como líder da comunidade e questionar as ações do grupo. Leia mais aqui.
 
Márcio Oliveira Matos, liderança do MST na Bahia – 24.jan.2018
Matos era um dos integrantes mais novos da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e morava no Assentamento Boa Sorte. Aos 33 anos, foi morto em casa, com três tiros, na frente de seu filho. Leia mais aqui.
 
Valdemir Resplandes, líder do MST no Pará – 9.jan.2018
Conhecido como 'Muleta', Resplandes foi executado na cidade de Anapu, no Pará. Ele conduzia uma moto e foi parado por dois homens. Um deles atirou pelas costas; já no chão, o ativista foi alvejado na cabeça. A missionária norte-americana Dorothy Stang foi assassinada na mesma cidade, em 2005. Leia mais aqui.
 
Jefferson Marcelo do Nascimento, líder comunitário no Rio – 04.jan.2018
Nascimento era líder comunitário em Madureira e foi encontrado com sinais de enforcamento um dia após desaparecer. Ele havia feito uma série de denúncias contra uma quadrilha de milicianos dias antes de ser executado. Leia mais aqui.
 
Clodoaldo do Santos, líder sindical em Sergipe – 14.dez.2017
Santos era líder do Movimento SOS-Emprego de Sergipe e foi baleado na cabeça por dois homens que foram à sua casa com a desculpa de entregar um currículo. Após orientar os criminosos a entregarem o documento diretamente à empresa que construía uma termoelétrica na região, o dirigente foi alvejado. Leia mais aqui.
 
Jair Cleber dos Santos, líder de acampamento no Pará – 22.set.2017
Santos foi alvo de um ataque a tiros na companhia de outros quatro trabalhadores rurais. O acusado do assassinato é o gerente de uma fazenda ocupada por trabalhadores ligados à Fetagri (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará). A polícia esteve no local momentos antes e os trabalhadores que estavam lá acusam-na de ter facilitado a fuga do gerente e de outros pistoleiros. Leia mais aqui.
 
Fabio Gabriel Pacifico dos Santos, o “Binho dos Palmares”, líder quilombola na Bahia – 18.set.2017
Binho, como era conhecido, era líder do quilombo Pitanga dos Palmares, na cidade de Simões Filho, Bahia. Ele havia acabado de deixar o filho na escola e seguia para o enterro de uma amiga quando foi abordado por homens em um carro. Um deles desceu do veículo e atirou várias vezes na direção do líder. Leia mais aqui.
 
José Raimundo da Mota de Souza Júnior, líder do Movimento dos Pequenos Agricultures (MPA) na Bahia – 13.jul.2017 
O quilombola Souza Júnior era defensor da agroecologia e educador popular. Momentos antes do crime, o líder camponês havia sido procurado por dois homens em casa. Ele foi baleado enquanto trabalhava na roça com o irmão e um sobrinho. Leia mais aqui.
 
Rosenildo Pereira de Almeida, o “Negão”, líder comunitário da ocupação na Fazenda Santa Lúcia, no Pará – 8.jul.2017 - O líder camponês, ligado ao MST, foi morto na cidade de Rio Marias, próxima à fazenda. Ele havia ido ao local para se esconder após reiteradas ameaças de morte. ele foi executado por dois motoqueiros com três tiros na cabeça. Leia mais aqui.
 
Eraldo Lima Costa e Silva, líder do MST no Recife – 20.jun.2017
Costa e Silva, de 57 anos, estava em casa, em uma ocupação na zona norte do Recife, quando homens armados o arrastaram para fora e o executaram às margens da BR-101, com quatro tiros. Leia mais aqui.
 
Valdenir Juventino Izidoro, o “Lobó”, líder camponês de Rondônia – 4.jun.2017
Lobó foi morto com um tiro a queima roupa em um acampamento em Rondominas, Rondônia. Ele liderava um grupo de sem-terra em ocupações na região. Leia mais aqui.
 
Luís César Santiago da Silva, o “Cabeça do Povo”, líder sindical do Ceará – 15.abr.2017
Silva tinha 39 anos quando foi executado em uma estrada no município de Brejo Santo (CE). Ele era membro do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplanagem (Sintepav-CE) e com militância ativa nas obras do porto de Pecém. Leia mais aqui.
 
Waldomiro Costa Pereira, líder do MST no Pará – 20.mar.2017
Pereira, que era servidor público e atuante no MST, foi morto dentro do Hospital Geral de Parauapebas, no Pará. Cinco homens armados renderam seguranças e foram até a UTI, onde atiraram no ativista. Ele estava internado após ser atacado em seu sítio, em Eldorado dos Carajás. Leia mais aqui.
 
João Natalício Xukuru-Kariri, líder indígena em Alagoas – 11.out.2016
Liderança história dos povos indígenas do nordeste, Xukuru-Kariri foi morto a facadas na porta de casa, em uma aldeia indígena em Alagoas. O assassinato ocorreu de madrugada, quando o camponês se preparava para ir trabalhar na roça. Leia mais aqui.
 
Almir Silva dos Santos, líder comunitário no Maranhão – 8.jul.2016
Santos era líder comunitário da Vila Funil, em São Luiz, e foi executado dentro de casa com tiros na cabeça e nas costas, na frente da mulher, da filha e de vizinhos. O acusado de ter cometido o assassinato teria afirmado, segundo a polícia que matou Santos por não concordar com a construção de uma ponte na comunidade - que atrapalharia o tráfico de drogas ao dar aos policiais acesso fácil ao local. Leia mais aqui.
 
José Bernardo da Silva, líder do MST em Pernambuco – 26.abr.2016
Silva, de 48 anos, era líder do MST em Pernambuco e estava caminhando com a esposa e uma filha às margens da BR-336 quando uma caminhonete se aproximou. Um dos ocupantes do veículo desceu do carro e atirou contra a vítima. Mulher e filha se esconderam e não ficaram feridas. Leia mais aqui.
 
José Conceição Pereira, líder comunitário no Maranhão – 14.abr.2016
Pereira tinha 58 anos quando foi morto com um tiro na nuca dentro de casa na capital maranhense. Nada foi levado da casa do líder comunitário, o que reforçou a hipótese de execução. Leia mais aqui.
 
Edmilson Alves da Silva, líder comunitário em Alagoas – 22.fev.2016
Presidente do asssentamento Irmã Daniela, Silva foi morto a tiros dentro do local. Ele era líder do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), o líder comandava ocupações e denunciava crimes ambientais e desmandos supostamente praticados por fazendeiros do litoral norte do Estado. Leia mais aqui.
 
Nilce de Souza Magalhães, a “Nicinha”, líder comunitária e membro do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) em Rondônia – 7.jan.2016
Nicinha era pescadora e participou de diversas audiências para denunciar a situação de seus vizinhos e danos ambientais. Ela desapareceu em 7 de janeiro e foi assassinada a tiros. Leia mais aqui.
 
Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, líder indígena do Mato Grosso – 1.ago. 2015
O assassinato de Navarro aconteceu durante uma reocupação de terras indígenas por parte dos Guarani-Kaiowá. Uma comitiva de fazendeiros se dirigiu à região e atacaram os indígenas. O ativista foi atingido com um tiro na cabeça quando estava às margens de um córrego procurando pelo filho. Leia mais aqui.
 
Paulo Sérgio Santos, líder quilombola na Bahia - 6.jul. 2014
Santos era líder quilombola e foi assassinado dentro do acampamento Nelson Mandela, em Helvécia (BA). Ele foi surpreendido por homens armados que chegaram em um carro e desceram atirando. Leia mais aqui.
 
Fonte: Opera Mundi

terça-feira, 6 de março de 2018

Marcelo não conheceu o fascismo?

Marcelo Rebelo de Sousa teve a sensatez e a sensibilidade de emitir uma nota “a lamentar” (lê-se no título) a morte do coronel João Varela Gomes: “O Presidente da República apresenta à Família do Senhor Coronel João Varela Gomes condolências invocando a sua militância cívica, em particular, a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada antes do 25 de Abril de 1974”, diz o texto enviado às redações no passado dia 28 de fevereiro.
 
Informo o leitor ou a leitora, caso não saiba, que Varela Gomes passou pelas prisões da PIDE (a polícia política de Salazar), participou na campanha eleitoral do general Humberto Delgado (que desafiou o regime), esteve na conspiração da Sé em 1959 e no assalto ao quartel de Beja em 1962 (que o qualificaram como um dos heróis da resistência).
 
Depois do 25 de Abril, Varela Gomes liderou a 5.ª Divisão do Estado-Maior das Forças Armadas, que percorreu o país a promover sessões de esclarecimento e de propaganda sobre a Revolução dos Cravos e o Movimento das Forças Armadas. No 25 de novembro de 1975 ficou do lado dos derrotados e teve de fugir do país. Voltou em 1979.
Em primeiro lugar tenho de dizer que se o Presidente da República fosse outra pessoa provavelmente a nota que citei nunca teria sido emitida. Cavaco Silva nunca o faria. Jorge Sampaio e Mário Soares talvez o fizessem, mas não tenho a certeza…
 
Em segundo lugar quero sublinhar a definição utilizada por Marcelo Rebelo de Sousa, construída para designar a forma como a República se organizou durante o longo consolado de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano: “Ditadura constitucionalizada”… Nem apenas “ditadura”, nem o autodesignado “Estado Novo”, nem o mais popular “fascismo”.
 
Esta versão agora adotada por Marcelo Rebelo de Sousa é a demonstração de como Portugal ainda tem muitos problemas para falar do seu passado, encerrado há 43 anos: o esforço para encontrar uma formulação bateriologicamente pura da infeção ideológica para dizer aos portugueses o que era o regime que Varela Gomes combateu é, por si só, um exercício de ideologia, pois parte da presunção de que falar sobre fascismo em Portugal é uma incorreção, uma inconveniência ou uma infelicidade.
É verdade que há historiadores e académicos a defender essa tese, mas, para mim, isso não faz sentido: houve partido único, houve câmara cooperativa, houve Mocidade Portuguesa, houve Legião, houve censura prévia, houve polícia política, houve prisões e campos de concentração para os opositores e houve um sem-número de outras instituições e leis no Portugal desse tempo – ou em alguns períodos dentro desse tempo – semelhantes a outros regimes fascistas.
Como não sou historiador nem académico, esta minha posição pode ser facilmente contestada por quem, nesta área, tem mais credibilidade do que eu. Porém, ao longo dos meus 54 anos de vida, já assisti a várias revisões profundas da história, sempre com suposto certificado científico, até de coisas bem antigas, milenares, sobre as quais pensava haver imenso saber consolidado.
 
Por isso, aquilo que hoje se escreve como sendo verdade científica acerca de história contemporânea será, de certeza, uma falsidade científica amanhã e, se calhar, voltará ao estatuto de verdade científica depois de amanhã.
 
O problema não é, insisto, de rigor histórico ou científico. O problema é outro. O problema é que quando ouvimos a palavra “fascismo” pensamos em opressão, em repressão, em escuridão. Quando ouvimos “ditadura constitucionalizada” pensamos em legislação, ordem e autoridade. Há aqui um planeta de distância, estamos a falar de dois países diferentes.
 
Imaginemos que o coronel Varela Gomes estava vivo e que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa se cruzava com ele e lhe dizia: “Quero agradecer-lhe, em nome do povo português, a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada.” Varela Gomes, que se definia como antifascista, como se sentiria? Provavelmente ofendido, se calhar até humilhado, certamente indignado.
 
E se em vez de Varela Gomes essa mesma frase, essa expressão “ditadura constitucionalizada” tivesse sido dirigida a Álvaro Cunhal? Ou a Mário Soares? Ou a qualquer um dos milhares de pessoas que passaram pela prisões da PIDE, muitas delas ainda vivas e com ativa participação na vida pública? Como podem essas pessoas, de diversos quadrantes ideológicos, que tantos anos da sua vida deram em torno do conceito mobilizador do derrube do fascismo em Portugal, aceitar agora esta esterilização da sua luta?
 
Como podem os filhos, os netos ou bisnetos dos resistentes a Salazar e Caetano aceitar uma versão oficial de que os seus pais, avós ou bisavós não lutaram contra o fascismo, lutaram antes contra uma “ditadura constitucionalizada”? Julgarão que os seus familiares os enganaram? Ou que o Estado está a trair a memória dos seus familiares?
Dizer, para definir o fascismo português, que se tratou, apenas, de uma “ditadura constitucionalizada” é conseguir inatacável rigor histórico, talvez mesmo para daqui a mil anos, mas é também escamotear a história real, vivida, pessoal de cada lutador político desse tempo, onde se documenta uma parte essencial do que se passou em Portugal durante 48 anos.
Penso que Marcelo tenta, como Presidente, pacificar o país, até com a sua memória. Daí ter decidido lamentar a morte do antifascista Varela Gomes, o que outros, repito, não fariam… Porém, ao tentar as meias-tintas, falhou e, até, afrontou o texto do preâmbulo da Constituição que jurou defender. É pena.


Artigo de Pedro Tadeu, in Diário de Notícias

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Países de merda

Poderia ser mais uma tirada de Donald Trump. André Levy contextualiza a expressão e retoma o caso exemplar de Eric Garner para nos fazer reflectir sobre qual o país que poderá merecer o qualificativo usado por Trump.
Projecto artístico multimédia «Try Our Shithole», no Trump International Hotel. A mensagem completa é «Not a DC resident? Need a place to stay? Try our shithole». Photo: @bellvisuals. «Shithole Projection on Trump Hotel», #Resist. Para conhecer Robin Bell consultar http://bellvisuals.com/ e https://www.instagram.com/bellvisuals/.CréditosRobin Bell/Bell Visuals.

Numa reunião bipartidária sobre reforma da política de imigração dos EUA, na semana passada, o Presidente dos EUA ter-se-á referido ao Haiti, El Salvador e nações em África como «países de merda» (shithole countries). Trump sugeriu que os EUA deviam preferir acolher mais pessoas de países como a Noruega ou de países asiáticos, porque podem ajudar os EUA economicamente. Durante dias, políticos e comentadores têm discutido diferentes versões do ocorrido, incluindo a palavra exacta usada por Trump. Questionado por um jornalista sobre se era racista, Trump repetiu uma sua já comum defesa superlativa: «Sou a pessoa menos racista que você já entrevistou». Mas a palavra exacta, mesmo se foi ou não uma palavra vulgar, não esconde o sentimento racista e classista por detrás das afirmações de Trump na reunião, em inúmeros discursos e nas suas acções.
 
Recordem-se as suas repetidas tentativas, congeladas por Tribunais de Apelação, de restringir imigração e refugiados de inúmeros países muçulmanos, assim como da Venezuela e RPD da Coreia. Recordem-se as decisões em Novembro passado de terminar um programa humanitário (Estatuto Protegido Temporário) que permitiu a cerca de 2500 nicaraguenses e quase 60 mil haitianos viverem e trabalharem no EUA, após o terramoto que devastou o seu país em 2010. Ou decisão semelhante este mês, que afectará cerca de 200 mil salvadorenhos, que foram para os EUA após os terramotos que devastaram o seu país em 2001. Este programa, instituído em 1990, protegia mais de 300 mil pessoas que encontraram refúgio nos EUA, aí trabalharam e estabelecerem vida, muitos tendo tido filhos que são considerados cidadãos dos EUA. O fim deste programa vai forçar estas famílias a sair do país. Ou ainda a intenção de Trump de terminar um programa da era Obama (conhecido pelo acrónimo DACA) que protege jovens imigrantes de deportação, cerca de 800 mil jovens (os «sonhadores»,ou &dreamers) que foram trazidos ilegalmente para os EUA enquanto crianças.
 
É redutor, porém, resumir este episódio a mais uma tirada do Trump. Numa tentativa (triste) de defender Trump, o comentador da rede Fox News, Jesse Watters, desvalorizou as palavras insultuosas alegando que «é assim que os homens e mulheres esquecidos da América falam no bar». Mesmo que assim fosse, não justificaria que um Presidente falasse da mesma forma numa reunião de Estado. E certamente, nem todos nos EUA falam nestes termos. Mas seria ingénuo pensar que o racismo nos EUA se resume a Trump, seus acólitos e apoiantes mais «esquecidos». O racismo nos EUA estende-se até a sua pré-história, está enraizado nas suas leis e instituições, e mesmo avanços conseguidos estão sobre constante ameaça: veja-se o retrocesso quanto ao Acto de Direitos de Voto, de 1965, por decisão do Supremo Tribunal, em 2013, que permite a vários estados alterarem as suas leis de voto sem aprovação federal, prejudicando sobretudo a população negra. Poderíamos aqui fundamentar este racismo institucional com números sobre os níveis de pobreza, educação, ganho salarial, encarceramento, etc. Mas desta feita termino com um caso concreto ilustrativo.
 Em 2014 Eric Garner foi morto por policias que o estrangularam com um chave de braço, prática oficialmente proibida. Antes de morrer repetiu 11 vezes «não consigo respirar». A polícia havia abordado Garner por suspeitarem de estar a vender cigarros individuais. O médico legal concluiu que a morte foi um homicídio. Porém, Daniel Pantaleopolícia que já em 2013 havia sido acusado de abuso numa tentativa de prender dois homens negros, obrigando-os a despirem-se na rua – não foi sequer indiciado, dando azo a inúmeros protestos por todo o país. 
Na semana passada, em Nova Iorque, foi o funeral da sua filha, Erica Garner, de 27 anos, activista contra a brutalidade policial. Em Agosto teve o seu segundo filho – Eric em honra do avô – e quatro meses depois, a 30 de Dezembro, faleceu após um ataque cardíaco induzido por um ataque de asma. Erica vinha atribuindo a deterioração da sua sua saúde à injustiça racial. Os números dão-lhe razão. Entre os países desenvolvidos, os EUA têm dos números mais elevados de mortes relacionadas com gravidez e parto: entre 700 e 900 mortes por ano (muitos mais enfrentam complicações severas). Mas os números são particularmente sérios entre os negros (ou, mais genericamente, entre as classes desprivilegiadas): a nível nacional, as mulheres negras morrem de complicações de gravidez a uma taxa três vezes superior às mulheres brancas (uma taxa semelhante às mulheres no México ou Uzbequistão). Em Nova Iorque, esse número eleva-se para 12 vezes mais. É caso para pensar qual é o país de merda.
 
Artigo de andré Levy, no AbrilAbril.pt

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Happiness



The story of a rodent's unrelenting quest for happiness and fulfillment.
"Happiness" by Steve Cutts (2017)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Revolução de Outubro está morta ?



No dia 7 de novembro de 1917, há cem anos, não havia verdadeiras democracias no mundo. Nos países onde se faziam eleições para o poder legislativo só uma pequena parte do povo tinha direito a voto: na maior parte dos casos só os proprietários, os empregados, os mais velhos ou alfabetizados é que podiam votar. Onde não havia ditaduras formais só uma pequena parte da população era chamada a decidir o futuro coletivo.

Na Inglaterra, tantas vezes descrita como a mais avançada das democracias europeias, os homens só tiveram acesso geral ao voto em 1918 e as mulheres, depois de 30 anos de manifestações reprimidas nas ruas, só o teriam em 1928.

Em França as mulheres só puderam votar em 1944, apesar de a Revolução Francesa, a da igualdade e da fraternidade, ter como símbolo uma mulher e de o voto dos homens para elegerem um parlamento ter começado em 1792 e dos homens não brancos em 1916.

Nos Estados Unidos os homens brancos podiam votar desde 1856, as mulheres desde 1920, os nativos desde 1924 mas, em resultado da dura luta dos afro-americanos contra a segregação, a universalidade do voto chegou à "terra dos homens livres" somente em 1965, já grande parte de nós era nascida.

Em Portugal o voto só foi verdadeiramente universal em 1974, graças à Revolução dos Cravos, pois boa parte da população estava proibida de ir às urnas, mesmo na República, antes do fascismo.

No dia 7 de novembro de 1917, há cem anos, os bolcheviques tomaram o poder na Rússia e herdaram o voto universal instituído pelo governo provisório da revolução de fevereiro. A Rússia não foi a primeira: na Nova Zelândia, na Finlândia, na Noruega e na Dinamarca isso já acontecia. Democracia no mundo em 1917? Não, não havia.

A Rússia bolchevique juntou à noção de direito de voto universal muitos outros de sua lavra: habitação, assistência médica e educação gratuitas, legalizou-se o divórcio, terminou a distinção entre filhos legítimos e ilegítimos, promoveram-se direitos das crianças e dos idosos, proibiu-se o trabalho infantil, as jornadas de trabalho foram limitadas a oito horas diárias, houve férias pagas, segurança social, estabeleceu-se salário igual para trabalho igual entre homens e mulheres. Quase ninguém no mundo tinha leis destas...

Os países de sistema capitalista encontraram um adversário que entusiasmava e mobilizava milhões de operários, empregados, intelectuais, professores, estudantes, homens e mulheres explorados, oprimidos, sem voz. Ao longo dos 70 anos seguintes, até à queda da União Soviética, muitos países capitalistas, pressionados pela competição com o campo socialista e pela luta dos deserdados da fortuna dos seus países, concederam inúmeros direitos políticos e sociais que hoje consideramos naturais.

Sim, os crimes contra a humanidade que se praticaram em nome do socialismo - tal como os dos capitalismo - são imperdoáveis. Mas isso não conta toda a história: uma boa parte das melhorias civilizacionais do planeta estão associadas ao desafio colocado pela primeira tentativa de construir uma sociedade sem explorados nem exploradores - e só assim as melhores democracias capitalistas caminharam para o que hoje são. Até no simples voto...

A denunciante mais talentosa da degradação do "comunismo real" é Svetlana Alexievich, a prémio Nobel da Literatura que escreveu O Fim do Homem Soviético. Mas até ela resolveu dizer isto a um jornal português: "O comunismo era uma ideia boa, bonita, no início. E acho que não está morto. O comunismo vai voltar, mais à frente no tempo..." A Revolução de Outubro faz hoje 100 anos mas, segundo Svetlana, a anti-soviética, o seu espírito não morreu... Espanto?


Artigo de Pedro Tadeu no Diário de Noticias

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

As revoluções no centenário de Outubro

Se há atitude que diz muito do ciclo de desdemocratização em que vivemos é, aliás, este regresso da velha abordagem que procura o cabecilha, em vez de entender o movimento.


Foi o acontecimento central da história do séc. XX”, dizia Eric Hobsbawm (A Era dos Extremos, 1994), “da mesma forma como a Revolução Francesa o foi do séc. XIX”. Sendo puros produtos da modernidade ocidental, em toda a sua contradição interna, a qual ajudaram a transformar como nenhum outro processo político, ambas foram transformadas em objetos históricos malditos por todas as direitas do mundo, que as tentaram desocidentalizar como se, numa rançosa lógica colonial, elas não fossem mais do que processos de mudança tumultuária às mãos de massas ignorantes e fanatizadas. Entre a francesa de 1789 e a russa de 1917, Hobsbawm via uma diferença fundamental: 1917 “teve repercussões muito maiores e que se prolongaram por muito mais tempo” do que 1789. “A Revolução de Outubro suscitou o maior, de longe, movimento revolucionário organizado da história moderna”, fazendo com que “ao fim de apenas 30 ou 40 anos da chegada de Lenine à estação da Finlândia em Petrogrado”, em abril de 1917, “um terço da humanidade vivesse sob regimes que decorriam diretamente dos ‘Dez dias que abalaram o mundo’”, como lhes chamou John Reed. De uma forma ou doutra, todos os movimentos emancipatórios do séc. XX se inspiraram nos bolcheviques, na sua luta contra o capitalismo e o imperialismo como modelos de dominação, na Alemanha, na Hungria ou no México dos anos 1917-23, na Espanha de 1936-39, nas resistências antifascistas da II Guerra Mundial, na China de 1949, em Cuba (1959) e nas lutas anticoloniais, até mesmo no Portugal de 1974-75, como tantas vezes Soares achou... Ao contrário da Revolução Americana de 1776, que manteve intactas escravatura e supremacia racial e que abriu caminho à colonização genocida de toda a América do Norte, as revoluções francesa e russa inspiraram durante décadas por todo o mundo movimentos de emancipação das classes exploradas e das minorias étnicas, mas só a russa se lançou na democratização radical da propriedade e, por exemplo, na emancipação das mulheres ou das minorias de orientação sexual. Como escreveu Moshe Lewin (O Século Soviético, 2005), “as representações do sistema soviético” reproduzidas no Ocidente, “largamente influenciadas pelas realidades ideológicas e políticas de um mundo bipolar”, baseadas em “juízos fundamentalmente ideológicos”, têm, desde sempre, impedido avaliar com rigor a dimensão social e cultural do projeto soviético. A sobrepolitização da análise do sistema soviético levou — e leva ainda — a que se “estude a URSS exclusivamente no seu estatuto de Estado ‘não democrático’ e se discuta o que não era, em vez de tentar compreender o que era”.

Na era do medo e do choque como instrumentos de gestão política (Naomi Klein), é revelador que a patologização das revoluções como processos de mudança tenha desenterrado as formas mais preconceituosas de encarar a história. Entre os piores vícios de análise das revoluções que por aí campeiam neste centenário de 1917 estão, antes de mais, essa essencialização da violência como caraterística genética da Rússia e da sua cultura, ou a ideia de que as revoluções, mais do que resultado da ação e da tomada de posição de grandes atores coletivos e da intersecção de tendências profundas (que maçada ter de as estudar...), são produto da manipulação de revolucionários profissionais, de líderes sobre-humanos (Lenine, Estaline) descritos como protagonistas da violência ideocrática, e, portanto, atores sociais desligados do conjunto da sociedade. Da mesma forma que as teses tradicionais da sovietologia ocidental (sobretudo Robert Conquest, 1968) e o próprio discurso oficial da URSS pós-estalinista e da Rússia pós-soviética elevaram Estaline ao altar de “tirano sanguinário empenhado em conseguir o poder total”, dessa forma “esquivando-se ao desafio narrativo de ter de dar conta da variedade das vítimas e dos perpetradores e desentranhar a complexa história da violência política na URSS” (James Harris, O Grande Medo, 2016), o discurso que se tem produzido no centenário continua a falar da “Revolução de Lenine”, que, por essa mesma autoria individual, não teria sido “uma marcha de forças sociais abstratas e de ideologias” (Orlando Figes, A Tragédia de Um Povo, 1996). Se há atitude que diz muito do ciclo de desdemocratização em que vivemos é, aliás, este regresso da velha abordagem que procura o cabecilha, em vez de entender o movimento.

Artigo do Manuel Loff no Público

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Outubro salvou a Humanidade

Em finais de 1941, as forças fascistas dominavam a Europa continental, da Península Ibérica até às portas de Moscovo. Aos comunistas e à URSS coube a cara tarefa de lutar contra o nazi-fascismo e salvar a Humanidade. 



A 27 de Janeiro de 1945, as tropas soviéticas libertaram o campo de concentração de Auschwitz
Créditos

Na Segunda Guerra Mundial, a URSS assumiu o papel determinante de derrotar o nazi-fascismo, num processo que o povo soviético designou como a «Grande Guerra Pátria».

Em Junho de 1941, com as mais poderosas forças militares até então conhecidas na história, a Alemanha invade a URSS. As divisões nazis avançam até Moscovo, onde tem lugar a primeira grande batalha em Setembro de 1941, Estalinegrado e Leninegrado, alvo de um cerco de cerca de 900 dias.

Momento fundamental de viragem na guerra foi a batalha de Estalinegrado, entre Novembro de 1942 e Fevereiro de 1943, na qual foram aniquiladas 20 divisões alemãs com mais de 330 mil militares.

Na contra-ofensiva soviética tiveram lugar outras importantes batalhas, entre as quais a batalha de Kursk (em Julho-Agosto de 1943), uma das maiores da história, onde foram aniquiladas 50 divisões, que possibilitou o contínuo avanço do Exército Vermelho até Berlim; a libertação do Campo de Concentração de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945; e a tomada do Reichstag, a 8 de Maio de 1945.

A batalha pela produção de armamento foi ganha pela transferência maciça de empresas da indústria pesada e de mão-de-obra para os Urais, que, a par da formação de operários qualificados, possibilitou o crescimento exponencial na produção de aviões, tanques e canhões, suplantando a produção alemã no mesmo período. 

Na obra The wages of destruction – The making & breaking oh the nazy economy, sobre a história económica da Alemanha nazi, Adam Tooze, refere que, «apesar de ter sofrido perdas territoriais e devastação, que se traduziu numa quebra de 25% do produto nacional total, a União Soviética, em 1942, conseguiu produzir mais do que a Alemanha em quase todas as categorias de armamentos». 

Importa recordar que, só depois da Conferência de Teerão (de Estaline com Churchill e Roosevelt), nos finais de 1943, em que se tornou evidente que, com o avanço do Exército Vermelho, a União Soviética estava em condições e a caminho de libertar a Europa com as suas próprias forças, as tropas britânicas e norte-americanas desembarcaram na Normandia em 6 de Junho de 1944.

No seguimento da II Guerra Mundial e do decisivo contributo da URSS para a vitória sobre o nazi-fascismo, alterou-se profundamente a correlação de forças no plano mundial, dando origem a uma nova ordem democrática e antifascista, que inscreveu na Carta das Nações Unidas o respeito pela soberania dos povos, o desarmamento, a solução pacífica e negociada de conflitos entre estados.

A violação destes princípios pelo imperialismo levou ao desencadeamento da chamada «guerra fria», obrigando a URSS a um grande esforço para se dotar do mais moderno e avançado armamento, dando origem a um forte poder militar que permitiu conter a agressividade do imperialismo e criou condições mais favoráveis à luta pela paz e pela libertação dos povos do domínio colonialista e imperialista, de que foi expressão a Revolução de Abril de 1974, em Portugal.

Também na Conferência de Paz de Helsínquia para a Segurança e Cooperação Europeia, concluída em 1975, o papel decisivo da URSS permitiu alcançar importantes acordos de desarmamento e tratados para a limitação das armas nucleares. 

Se a Revolução de Outubro e a construção de uma sociedade socialista significaram extraordinários avanços e transformações libertadoras, o desaparecimento da URSS e as derrotas do socialismo no Leste da Europa resultaram num grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.

O desastre económico e social da contra-revolução 
O imperialismo desencadeou uma violenta ofensiva a fim de recuperar as posições perdidas ao longo do século XX e impor a sua hegemonia no plano mundial. Como resultado, o mundo tornou-se menos democrático, mais injusto e mais perigoso, tendo-se aprofundado as injustiças e desigualdades sociais.

Desde a proclamação da derrota do socialismo, nos países que constituíam a URSS registam-se mais de 100 milhões de pobres, a esperança média de vida diminuiu e observou-se uma enorme recessão, com contracções do PIB e da produção industrial na ordem dos 50%.

A nova realidade abriu portas a guerras imperialistas (caso da ex-Jugoslávia) e à instauração de regimes ditatoriais e fascistas, como actualmente na Ucrânia.

A nível global, generalizaram-se as acções de desestabilização e as guerras de agressão, tendo-se instituído o ataque a liberdades e direitos fundamentais com a NATO e outros pactos agressivos.

Por outro lado, poderosas multinacionais passaram a comandar Estados e regiões inteiras, e novas formas de exploração foram sendo ensaiadas, aprofundando-se o fosso entre ricos e pobres.

A pobreza, a fome e a doença dominam vastas regiões do planeta, onde a exploração do trabalho infantil, o trabalho escravo, o tráfico de seres humanos, o comércio da droga, a corrupção e outras chagas do capitalismo não param de alastrar.

Com o argumento do combate ao terrorismo generalizaram-se políticas e medidas securitárias que interferem com direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, da mesma forma que crescem os ataques ao movimento operário e sindical, e germinam forças xenófobas, racistas e fascistas.


No quadro de consequências políticas resultantes do imperialismo surge também o maior movimento de refugiados no pós-2.ª Guerra Mundial, a par da morte de milhares de pessoas no Mediterrâneo.
__________________________________________________
1. Rede internacional de organizações que trabalham para reduzir a pobreza
2. Organização das Nações Unidas
3. Organização Internacional do Trabalho
4. Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
5. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)




Fonte: Abril Abril